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ARGUS
Pode um navio contar a história da pesca do bacalhau?

Este navio teve duas vidas e está a caminho da terceira. Foi bacalhoeiro português nos bancos da Terra Nova e da Gronelândia. Foi cruzeiro turístico nas Caraíbas, quem sabe se não foi como um barco do amor. E agora, que regressou ao país de origem depois de ter sido resgatado do abate nas Antilhas Holandesas, a ideia é torná-lo num navio-memória da sua primeira vida. O Argus ficou célebre mundialmente, tudo por causa de um livro que apareceu em 1951 nas principais livrarias de Londres e Nova Iorque e, pouco depois, em Portugal: A Campanha do Argus — Uma Viagem na Pesca do Bacalhau.

O autor é o australiano Alan Villiers, que na época já era um conhecido especialista em assuntos náuticos. Era comandante da Marinha australiana e tinha-se tornado repórter da revista National Geographic, além de ter no currículo vários livros, como aquele em que acompanhou, na década de 1920, uma expedição norueguesa de baleeiros à Antárctida.

Deu-se a coincidência de Villiers se ter encontrado, em 1949, com o embaixador português em Washington, Pedro Teotónio Pereira, que o convidou para acompanhar a frota portuguesa de bacalhoeiros na sua viagem anual à Terra Nova e Gronelândia.

“Ainda havia, disse-me ele, pelo menos 35 veleiros a participar nesta histórica campanha pesqueira, provenientes de Lisboa, do Porto, de Aveiro, da Figueira da Foz e de Viana do Castelo”, escreveu Villiers no prefácio do livro (reedição da Cavalo de Ferro, em 2005). “Quanto a mim, onde quer que houvesse 35 veleiros em operação, esse era o lugar onde eu queria estar.”

Convite inocente, em pleno Estado Novo, que propagava o “regresso de Portugal ao mar” como um desígnio? Nem por isso, mas lá iremos mais tarde. E assim, em 1950, Villiers aventurou-se na campanha do bacalhau, que começou, como muitas outras na época, com a reunião dos navios em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, para a bênção da frota e missa, com os pescadores, os capitães, os marinheiros, as mulheres e os filhos e os altos dignitários da Igreja e do Estado na assistência, contou-nos ele.

Naquele ano, a frota portuguesa tinha 32 veleiros, além de 30 navios-motor e 18 arrastões modernos. Mais de 3000 pescadores iam, todos os anos por volta de Abril, para aquelas paragens do outro lado do Atlântico. Com sorte, cinco meses depois, no final de Agosto, teriam os porões carregados de peixe para poderem voltar a casa.

“Esta era a última frota à vela ainda em operação na Europa inteira. Tratava-se dos últimos veleiros de pesca, simples e despojados, que lutavam para retirar o sustento do fundo do mar (...), pescando de forma tradicional, com linhas e anzóis, usando aqueles pequenos botes a remos chamados dóris. No convés do Argus havia montículos de dóris — dez deles, com seis dóris cada um.”

Só já os portugueses apanhavam bacalhau assim: um só homem num dóri afastava-se do navio-mãe, desde centenas de metros até algumas milhas, a remos e depois, se havia vento, içava uma vela artesanal, e pescava à linha. Só quando tinha o pequeno bote cheio, ao fim de horas e horas, é que regressava.

“Devido à crónica de Alan Villiers, o Argus tornou-se o mais conhecido navio bacalhoeiro português no estrangeiro”, sublinha, na introdução na edição de 2005, o historiador Álvaro Garrido, da Universidade de Coimbra e actual consultor do Museu Marítimo de Ílhavo. “Só o Gazela I e o Creoula rivalizaram na fama.”

Também Aníbal Paião, sobrinho-neto do capitão do Argus nessa campanha, Adolfo Simões Paião Júnior, então com 52 anos, atribui a Villiers a fama deste navio. “Fez um filme, fez grande número de fotografias que correram o mundo e o livro, que é traduzido em 12 idiomas, tem uma linguagem acessível, muitos pormenores e é agradável de ler. O Argus passou a ser mítico, conhecido em todo o mundo, precisamente por causa deste livro”, considera Aníbal Paião, sócio da empresa de bacalhau Pascoal.

Ainda antes da saída do livro, Villiers publicou uma reportagem no jornal New York Times, conta por sua vez Álvaro Garrido. E a promoção do documentário (“The Bankers — The Voyage of the Schooner Argus”) e do livro, cheio de fotografias, passou por um périplo do autor com conferências por diversas cidades norte-americanas. As rádios transmitiram também as suas palestras e as televisões partes do filme. No Reino Unido, por exemplo, a BBC entrevistou Villiers duas vezes.

“Independentemente de utilizarmos navios à vela, que mais tarde desapareceram por uma série de circunstâncias, também o tipo de pesca, com dóris, estava a desaparecer”, contextualiza Aníbal Paião. “Havia um duplo risco de desaparecimento — do tipo de navio utilizado e do tipo de pesca praticada nesse navio —, daí a importância deste livro.”Antes de passarem para os arrastões, os franceses pescavam bacalhau com dóris, que no seu caso transportava dois homens: “Mas, progressivamente, foram abandonando essa actividade, que nós levámos até ao limite do que é razoável. Tornou-se obsoleta, além de ser uma vida duríssima e perigosa. Já viu o que é estar no meio do Atlântico numa casca de noz, numa embarcação de madeira? De um momento para o outro, levanta-se mau tempo, vem uma névoa...”

Numa linguagem viva, Villiers dá conta desse momento em que, depois de uma longa espera por isco em São João da Terra Nova, no Canadá, chegaram aos bancos ao fim de um dia de viagem e os homens estão prestes a sair nos dóris. “O mar ainda estava agitado, mas o vento fraco, e o Argus abanava e oscilava. Eu teria hesitado em lançar até um bote salva-vidas a não ser que fosse absolutamente necessário; mas agora aqui estávamos nós, prestes a arriar mais de 50 dóris e a largá-los naquele mar. Mesmo ao cabo de 30 anos passados em navios, aquela era para mim uma experiência de navegação completamente diferente. Até agora, o mar tinha sido sempre uma forma de suportar o navio e (...) de movimentar cargas de um ponto do globo ao outro. Se não estivéssemos no porto, permanecíamos no navio.”

Mais à frente: “E agora, aqui estava um navio que alegremente lançara ferro nos bancos, no meio do mar aberto, a milhas de qualquer terra e de qualquer abrigo (eu, na minha experiência, nunca ancorara num local onde não fosse pelo menos parcialmente resguardado) e se ocupava então a lançar a tripulação em botes pequenos e frágeis, sem levarem sequer um colete salva-vidas consigo.”

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FOTOS: JAIMANUEL FREIRE / APA


 



Data: 2012-10-07

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